Inovação educativa e educação emocional: uma transformação urgente

Inovação educativa e educação emocional: uma transformação urgente

Grupo PSN
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A crise na educação está a gerar algum desânimo e desmotivação nos alunos e nos professores. E com o objetivo de transformar o ensino começam a surgir cada vez mais propostas inovadoras, muitas delas focadas em qualidades associadas à inteligência emocional, na qual se encontra grande parte do bem-estar e do sucesso vital da pessoa.

É uma questão transversal a muitos países, das mais variadas latitudes e longitudes, com um dos exemplos mais recentes a chegar-nos de Espanha, através do projeto Escolas Criativas (Escuelas Creativas).

Trata-se de uma iniciativa da responsabilidade do departamento de Projetos Educativos da Fundação Telefónica, que se juntou ao conhecido chef espanhol Ferrán Adrià para reproduzir, em ambiente escolar, a metodologia do restaurante elBulli (dirigido por Adrià), com o objetivo de transformar a maneira de ensinar e de aprender através da criatividade.

O chef queria também transmitir que paciência e perseverança são tão importantes na hora de inovar quanto a liberdade e criatividade. Adrià reconhece ter cometido um erro ao lançar o BulliLab, o laboratório de ideias em que tem trabalhado desde o encerramento do seu lendário restaurante na localidade de Roses (Girona), e que terminará quando o novo elBulli abrir este ano. “Não percebi que para fazer algo extraordinário é necessário um tempo extraordinário”, resumiu Ferrán Adrià.

A sua visão coincide com a de Josefina Cambra, presidente do Consejo General de Colegios Oficiales de Doctores y Licenciados en Filosofía y Letras y en Ciencias, órgão que reúne professores espanhóis de todos os níveis de ensino, entre outras profissões.

Dada a urgência de lançar uma revolução educativa baseada na inteligência emocional e social, no desenvolvimento de inteligências múltiplas e na promoção da criatividade e do pensamento crítico, Cambra afirma: “É verdade que a escola está lenta nas mudanças que opera e se rege por uma forte inércia, mas acho que não devemos ver esses processos como necessariamente negativos, uma vez que a educação não deve funcionar à toa. A educação das crianças e dos jovens é delicada, não podemos brincar com ela. A escola deve ser estável e as mudanças devem ser bem pensadas e bem digeridas, o que não é necessariamente um obstáculo para a pesquisar e incorporar novas necessidades sociais “.

A chave do sucesso e da aprendizagem

Mas em que sentido a inovação educacional é imperativa? Para Diana Muñoz Leira, socióloga, assistente social, coach e especialista em inteligência emocional, “uma vez que os estudos superiores se generalizaram, o mercado de trabalho exige liderança, empatia, colaboração, criatividade e diferenciação.

No entanto, a educação afastou-se de forma brutal da componente prática, da experimentação e da emoção, embora esteja comprovado que o que aprendemos através dos sentidos não é esquecido. O sucesso académico passou a basear-se na competitividade – representada pelos omnipotentes exames -, pela uniformização – separando aqueles que ficam fora do que é norma – e no bom comportamento, neste caso entendido como a capacidade de reprimir as emoções de alguém (algo que, em última análise, pode gerar mais conflito).

Contrariando essa ideia, a evidência científica mostrou que a inteligência emocional é a verdadeira chave para o sucesso na educação e na vida, uma vez que não só nos permite desenvolver as potencialidades e a criatividade que todos carregamos, mas também nos oferece bem-estar, autoconhecimento, empatia, companheirismo, capacidade de liderança, desempenho académico e melhor desempenho profissional”.

Carlos Magro,especialista em inovação educacional e autor dos guias das Escuelas Creativas, explica na introdução: “As instituições educativas têm tido durante muito tempo o domínio do cognitivo, mas não do afetivo. Estávamos tão focados na construção e reprodução racional do conhecimento que deixávamos fora da sala de aula os aspetos corporais e emocionais, as atitudes e os relacionamentos com os outros.

Delegámos nas áreas informais da educação tudo o que tinha a ver com a preparação para a vida pessoal, interpessoal e social. Mas hoje sabemos com certeza que não podemos separar inteligência e corpo, assim como não há aprendizagem sem emoção. E toda a aprendizagem pode ser emocionante. E as emoções podem ter um impacto significativo e duradouro nas conquistas de aprendizagem. E, já agora, em vez de colocar de lado ou suprimir o corpo, as emoções e as atitudes, o mais eficaz na aprendizagem é incorporá-los para construir conhecimento cognitivo “.

Docentes na encruzilhada

A incorporação da esfera emocional na educação não é simples, mas os especialistas concordam que os processos de inovação devem ser sistémicos: ou se aplica como parte central do processo, com o compromisso de todos – escola, família, autoridades – ou não passarão de tentativas falhadas.

O que acontece é que, como explica Josefina Cambra, “o acesso atual à informação tem muitos aspetos positivos, mas também tem inconvenientes: todos nos podemos tornar porta-vozes de tudo.

Esta falta de equilíbrio afeta os professores, entre outras profissões, traduzindo-se numa clara perda de prestígio. Anteriormente, quando surgia um conflito na escola, os pais trabalhavam com os professores para o resolver. Atualmente acontece o contrário e a professora enfrenta uma espécie de situação de assédio e contestação. E para ajudar a complicar ainda mais, as grandes bolsas de professores que existem na educação pública impedem o seu desenvolvimento profissional”.

Para Josefina, à perda de prestígio e à instabilidade no trabalho devemos acrescentar outra realidade social: a educação foi banalizada e a cultura do esforço deixou de ser atraente. “Ensinar aos adolescentes que o conhecimento não é tão importante quanto certas relações ou capacidades de comunicação é uma armadilha. O conhecimento é fundamental.

Claro que o conhecimento pode ser transmitido de uma forma mais inovadora, mas o verdadeiro objetivo da educação é o de adquirir uma cultura tão sólida quanto possível”. Só que, o que acontece, é que estamos perante uma pescadinha de rabo na boca: ao estarem no centro de um contexto em constante mudança e ao serem tão questionados, muitos professores não chegam a desfrutar da sua própria profissão. Além disso, numa situação de “salve-se quem puder” e sem o tempo necessário para estabelecer uma relação de continuidade com o aluno, os professores acabam também por não conseguirem desencadear uma verdadeira atração pelo conhecimento “.

Diana Muñoz Leira, que trabalha na formação de docentes ao nível da inteligência emocional e de outros recursos educativos, explica que os professores mais antigos vivem situações de desmotivação, isolamento e desespero: “Alguns professores choram de impotência e não é incomum que se estranhem quando colocados numa dinâmica de grupo que facilita a expressão de emoções, já que em muitos casos dificilmente comunicam entre si. De repente, eles percebem que o mesmo acontece com os seus colegas de profissão e acabam por se sentir mais compreendidos, acompanhados e livres. Além disso, quando veem os colegas a trabalhar com ferramentas associadas à inteligência emocional e ao coaching, acabam por sentir na própria pele o quão motivadores e proveitosos podem ser, o prazer que conseguem despertar, percebendo assim até que ponto eles podem criar um ambiente de aprendizagem muito mais gratificante nas suas aulas”, conclui.

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